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O Ilusionista

Sábado, 18.11.17

 

 

O Ilusionista olhou para a plateia com um sorriso seráfico. Iria surpreendê-los e iludi-los com o seu novo truque, guardado a sete chaves no maior secretismo.

Gostava particularmente do momento da expectativa, as luzes que o isolavam de tudo o resto, tirar a capa, nada na manga e, de repente, aqueles segundos mágicos quando a plateia abria muito os olhos para tentar perceber o que tinha acontecido.

Desta vez a surpresa seria muito maior: iria evaporar uma parte do próprio tempo. O cronómetro iria reiniciar mas com três anos retirados a todos, como se não tivessem existido.

A arte maior, que só ele dominava, residia precisamente nisso: a plateia tinha vivido esse tempo, tinha sido prensada, martelada, machucada, empacotada, tinha mesmo andado para trás alguns degraus da escada. O que importava era o que o cronómetro marcava daqui para a frente.

Sacudiu a melena teimosa, o rosto iluminado a contrastar com o fato escuro, aproximou-se do aparelhómetro e deu-lhe corda. Os números mágicos surgiram num cartão furado: três anos tinham desaparecido, precisamente os piores de todos.

O silêncio pesou na plateia. O Ilusionista preparava-se para a vénia do triunfo, mas os aplausos não vieram. A plateia estaria a tentar perceber o truque? Era impossível, era o seu truque, só seu.

A plateia ergueu-se quase em simultâneo: rostos incrédulos, jovens, velhos, de meia-idade, a tentar digerir a ilusão do cronómetro. Depois quase em simultâneo, como se uma mola os impulsionasse, dirigiram-se ao palco e exigiram ao Ilusionista manhoso que lhes explicasse o truque.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:15

Amizade

Sexta-feira, 10.06.16

 

 

Passamos a maior parte da nossa vida

todo um percurso

à procura de um lugar que sabemos existir

porque já nos aproximámos o suficiente 

para saber que existe

 

Dizem-nos que isso só nos livros ou nos filmes

e deixamos de falar nisso

Sabemos bem que depois de ver essa claridade

e sentir o seu calor

nada nos poderá confortar

não é essa a nossa natureza

 

Um dia o tempo pára

e cruza as suas linhas e voltas por um segundo

Somos de novo quem fomos um dia

a criança que sabia e que se projectava no futuro

 

Um segundo é quanto basta

para misturar as linhas e voltas do tempo

O amigo imaginário está ali

carne e osso

voz própria

ideias definidas

 

Somos dois agora

e é como se o mundo inteiro estivesse do nosso lado

e não do outro lado

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:12

...

Segunda-feira, 02.08.10

 

Dizem-nos que não podemos captar o tempo

que o que passou passou por nós

e eu sorrio só para mim

 

Podemos eternizar esse tempo

essa é a nossa condição

é assim que nos mantemos no mundo

de outro modo tudo nos seria

insuportável

 

Volto por isso a esse tempo

que eternizo dentro de mim

como um filme sem princípio nem fim

mas com uma atmosfera, sempre amorosa

e uma claridade, de eterno verão

 

Nesse filme estão todas as pessoas que amei

e não me esqueço de nenhuma

e estamos num piquenique

e há risos e lembro-me de todas as vozes

todas

as suas entoações únicas e trejeitos muito próprios

e expressões e significados

cumplicidades que animam a alma

 

Não digo adeus

sou como os sioux

e as almas não dizem adeus

estão sempre unidas

 

no meu caso, é nesse filme e nesse piquenique

mas podia ser outro o cenário

tinha era de ser no verão

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:35

Do Baú:

Quarta-feira, 15.04.09

 

 

Que fiz eu a esse tempo todo

que a realidade insiste em mostrar

que passou

por mim   pelos demais   pelas coisas

 

e eu sem saber o que fiz a esse tempo

sem o ter sentido passar

 

 

 


 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:17








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